Entrevista: Jared Leto fala sobre fazer filmes e política para a revista espanhola ICON El País

Alguns dias atrás, saiu nas bancas a revista espanhola Icon El País com o Jared Leto na capa contendo uma matéria exclusiva com ele, na qual ele aborda assuntos como o processo de atuar e a atual política dos EUA. As scans da revista não estão disponíveis ainda mas nossa equipe já teve acesso à matéria e foi traduzida. Veja abaixo a matéria completa:

Tema: Mistério faz parte da beleza
Se alguém tentar te explicar quem Jared Leto é, fuja. Não porque o quão complicado é a figura elusiva deste ator imprevisível, ídolo inquieto do rock, embaixador da Carrera e agora o Coringa por milênios, ou pelo menos parece ser. Mas é só usando a lógica de que definí-lo poderia destruir a magia.

“Fazer filmes é como escalar o Monte Everest, ele pode ser doloroso e brutal. Um filme pode mover as pessoas da mesma forma que a sua filmagem pode mudar a vida de um ator “

Jared Leto tem um problema com a sua imagem, diria um guru do marketing. Mas ele não tem intenção de mudar isso. Quando ele parece pronto o suficiente para acabar em um desses compartimentos rotulados em que celebridades são, muitas vezes, conduzidos, ele gosta mais ainda de fazer exatamente o oposto. Se eles o consideram como um ator bem conhecido e respeitado em Hollywood, então ele decide deixar a indústria cinematográfica por seis anos e ganhar um Oscar com o seu retorno (que aconteceu em 2014 com o filme Dallas Buyers Club). Se ele é considerado uma estrela pós grunge e líder do Thirty Seconds To Mars, banda com a qual encanta arenas lotadas enquanto é venerado como um deus por adolescentes usando delineador, o cara passa um fim de semana acampando em uma floresta em Malibu em uma espécie de comunhão espiritual com milhões desses seguidores (ele os chama de echelon; ele odeia a palavra fã). Meditar em volta de uma fogueira, cantar no karaoke e gastar o tempo fazendo tudo o que um músico que já vendeu dez milhões de cópias de seu álbum nunca faria.
Ele é famoso por ser um artista profundo, mas ele também é capaz de se unir em obras comerciais como Esquadrão Suicida, filme de super-herói que sairá 05 de agosto (Estreia mundial) e no qual ele interpreta o Coringa, o Hamlet dessa geração se considerarmos o quão cobiçado esse papel é. Para complicar ainda mais as coisas, ele tem inexplicáveis 44 anos e um rosto de alguém que acabou de fazer 30. Jared Leto é, encurtando tudo, alguém conhecido por milhões, mas que, graças a estas manobras, ninguém realmente sabe quem é.
Eu mesmo, me sentei em frente a ele na área da piscina em sua casa em Hollywood Hills e não pude descobrí-lo. Eu estou falando com um tipo, introvertido, intrigante e rosto pensativo que me cumprimentou com uma batida de punho e que agora está devorando um prato vegano. Mas meia hora antes, a equipe da ICON estava fotografando uma estrela do rock que se movia na frente da câmera como uma pantera, carismático, visceral e hipnótico. Ele parece mais confortável na frente de 20.000 fãs do que na frente do meu triste gravador. É esta a divisão entre Jared, ator e cantor? “Bem, fazer filmes é como… escalar o Monte Everest”, argumenta ele, enigmático. “Pode ser algo realmente doloroso e brutal. Você está congelando, você está à beira da morte e quando você chegar ao topo, Deus! Você mal pode apreciar aqueles cinco minutos de recompensa, porque você está preocupado com ter que descer novamente. Um filme pode mover as pessoas da mesma forma que pode mudar a vida de um ator “.
Escalada do Monte Everest requer um processo de adaptação: respiração acelera devido à falta de oxigênio, explisões de frequência cardíaca. Ouvir como Jared Leto responde a uma pergunta também requer adaptação. Talvez porque ele é tímido, talvez porque ele é completamente comprometido com uma persona impenetrável que ele mostra para a mídia. Afinal, Leto é famoso por causa do compromisso que ele proporciona ao seu trabalho.
Em Esquadrão Suicida, os piores e mais perigosos sete vilões do universo DC concordam, depois de terem sido presos, a participar de missões secretas governamentais de risco a fim de limparem seus registros: alguns de seus colegas de elenco asseguraram que eles não conheceram Jared, nem mesmo depois de semanas de filmagens, eles só conheceram o seu Coringa que na verdade é a verdadeira estrela. Para se preparar para o papel, o ator entrevistou psicopatas e, de acordo com rumores de Hollywood, ficou no personagem durante meses. “Acho que o Coringa vive em outra dimensão, como um xamã”, explicou. “É um papel muito tóxico. No início eu comecei aprendendo tudo sobre ele, mas eu tive que parar porque ele foi definido e reinventado várias vezes. Eu tinha que me educar e experimentar uma transformação física. Além disso, o Coringa encontra prazer na violência, é por isso que eu me encontrei com psiquiatras e pessoas que já foram presas por tempo muito longo”. Pergunto-lhe se ele sente uma pressão especial para ter de encher os sapatos de um papel que tem sido surpreendentemente entregue por Jack Nicholson e Heath Ledger. Ele balança a cabeça. “Eu fiz o melhor trabalho que eu fui capaz de fazer. Eu tentei fazer algo muito diferente, não poderia ser de outra maneira. Eu tive que testar novos territórios, mesmo que isso signifique que eu poderia falhar. Neste ponto, o resto é com o público. Eu fiz o melhor que pude. Eu não posso mudá-lo agora “.
A solidão de um escritor profundo – “Eu tenho ficado mais horas no palco do que na frente de uma câmera. Eu me sinto cumprido com ambos, mas o processo é… diferente”, ele reflete, elevado, visual, abstrato, como um artista tem que soar quando ele está sentado perto de sua piscina em sua casa em Hollywood. “Fazer filmes é um processo extremamente colaborativo, há uma grande quantidade de pessoas envolvidas. Mesmo em photoshoot de hoje: olhe quantas pessoas somos. Criar uma música tem apenas duas pessoas, ou menos: no meu caso, meu irmão Shannon e eu. É algo íntimo que lhe permite ser tremendamente egoísta, e, por vezes, ser egoísta é importante porque ajuda você a ouvir a sua própria voz. Eu não recomendo isso para tudo, mas para a música pode ser algo maravilhoso. Não importa se você compõe e ninguém te ouve ou se você é Mozart. O processo pode ser tão poderoso como o resultado”. Isso faz muito sentido, mas eu não me lembro a minha pergunta por tanto tempo. Pode parecer que Jared Leto está puxando uma enorme e longa piada meio que humano, mas a realidade aconselha a tê-lo como um ser humano único que vem de um lugar muito incomum.

“Eles deram a Obama o pior trabalho do país. E eu acho que ele fez um trabalho incrível. Eu não sou um daqueles que pensa que um presidente é um super-herói “.

O forro prateado – Não muito tempo depois, Leto nasceu em Bossier City (Louisiana), em 1971, seu pai abandonou a família e o menino nunca mais o viu. Seu pai, cometeu suicídio quando ele tinha apenas oito anos de idade. Jared foi cresceu com seu irmão e sua mãe Constance, uma acrobata de circo que criou seus filhos no nomadismo e vida hippie. Eles viveram em uma infinidade de lugares, incluindo Haiti, onde a família trabalhava em uma clínica gratuita. Quando ele ganhou o Oscar, em seu discurso emocionado – dois minutos virais em que ele menciona a Venezuela, a Ucrânia e os 36 milhões de pessoas que morreram por causa da AIDS – ele dedicou o prêmio à sua família. “Hoje, eu ainda daria o mesmo discurso”, menciona. “Ainda há pessoas na Venezuela e Ucrânia lutando legitimamente por seus direitos, arriscando a perdendo tudo. E eu gostaria de dedicá-lo novamente para o meu irmão e minha mãe. Eu diria algo que vale a pena dizer. É dado para você um momento do estágio em que você pode compartilhar algo com todo o mundo, o que você quiser, e eu queria redirecionar essa luz que estava em mim de volta para questões importantes que valem a pena mencionar “. E o que valeria a pena em mudar no mundo agora? “Isso é um jogo perigoso: mudar as coisas antes de terem de ser alteradas. Um tem que ser cauteloso. Eu acho que eu iria mudar a ignorância. Que os nossos desejos não cubram nosso julgamento. Eu gostaria que tivéssemos a capacidade de ver as pessoas e o mundo sem preconceitos.”
A mensagem não deve nos surpreender: ela funciona vindo dele. Em março de 2014, Leto tinha certeza de que uma de suas inspirações de estilo era Jesus Cristo, alguém com quem ele dividiu o cabelo longo, o olhar iluminado e o discurso preciso. Não há dúvida de que o estilo de Leto sempre vale a pena mencionar. Suas roupas para o Oscar foram descritos como “perfeito para um ‘prom dance’ de 1974” (The New Yorker, sobre a cerimônia de 2015), mas o ator não é nenhum um alienígena quando se trata de moda. Na última edição da cerimônia de premiação, ele foi acompanhado por Alessandro Michele, amigo e designer da Gucci, e alguns meses atrás, ele assinou como o novo rosto da Carrera. Com estes óculos ele compartilha um vínculo de infância. “Meu irmão e eu costumavamos ter um par de (óculos) Carrera e nós o compartilhávamos, eram alguns Porsche Carrera que poderiam ser dobrados e veio em um pequeno saco, por isso as minhas memórias da marca me lembrar de um momento muito especial na minha vida”.
Há uma centelha de honestidade em suas palavras. Como se a simplicidade pode ser possível na era Donald Trump. “Eu não sei porque as pessoas se surpreendem com a atenção que ele está recebendo. E Por que não com as coisas que ele diz? Isso nos permite uma grande oportunidade para tirar a nossa máscara dos olhos e ver como as coisas realmente são: estamos longe da perfeição e o que está acontecendo é um reflexo disso”. 

Esta é uma outra particularidade que Leto possui: ele é um homem capaz de ver um lado positivo no Trump. “As pessoas estão prestando atenção à política graças a ele e isso não é necessariamente uma coisa ruim. Ele está fazendo-nos debater sobre a imigração. Ele tem cuidado com uma conversação, não só entre os republicanos radicais mas também entre todos os outros partidos. Eu adoro as pessoas de todo o mundo, mas em Los Angeles temos uma ligação especial com o México. Somos vizinhos. Não muito tempo atrás Los Angeles era território mexicano. Culturalmente estamos muito similar. Não há diferença entre o norte e o sul da fronteira. Eu acho que a cultura é algo bonito. E cultura mexicana faz a Califórnia mais rica em todos os aspectos. Culturas que enriquecem uns aos outros torna o mundo um lugar muito mais interessante. Você pode imaginar se, tivéssemos de comer o mesmo prato todas as noites? Consumir sempre o mesmo tipo de arte, design, arquitetura, música ou falar a mesma língua? Estou totalmente entregue à diversidade. É estranho como isso assusta tanto as pessoas. Mas nós vamos passar por isso, porque as coisas estão muito melhor agora do que nunca. Há pessoas que querem nos fazer crer que não é assim que as coisas são, mas eles nunca são melhores. Qualidade de vida. Há muitas pessoas que vivem na pobreza no mundo, mas vai ficar melhor, estou otimista “.
É quase cômico o quão tentador que parece virar a mesa e lhe pedir para procurar um lado negativo no presidente que apoiou com tanto entusiasmo, Barack Obama. “Deram-lhe o pior trabalho do país”, diz ele. ‘A economia foi quebrada. A confiança era a mais baixa. O Oriente Médio ficou em uma situação desastrosa. E eu acho que ele fez um trabalho fantástico. Temos sorte de estar gostando da estabilidade que temos neste país. Eu não sou uma daquelas pessoas que pensam que um presidente é um super-herói. Há uma coisa chamada Congresso, e tem o poder de permitir que você faça as coisas ou não. A história vai lhe reservar um bom lugar’.”

Escrito por Lucas Arraut

Fotos por Van Mossevelde +N

Roupa David St. John-James

ATENÇÃO: A CÓPIA TOTAL OU PARCIAL DESTE ARTIGO É TERMINANTEMENTE PROIBIDA

Créditos totais da tradução para o inglês: letorgasm (Twitter)

Tradução para o português: jaredletobr.com

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Publicado por Bianca em 04/jun/2016

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